sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Oceano


Pelas metáforas se diz um coração.



Oceano


.

Está feito. A gota de tinta azul escorreu sobre o papel desenhando um círculo disforme reivindicando que eu lembrasse você. Me rendo. É seu olhar. É seu mar azul pra uso pessoal, me seduzir. Olhando agora do porto consigo ver seu destino. Era azul aquele olhar. E quando me perguntava pelo oceano, respondia: imensidão. O que não se vê fim mas supõe o começo de onde o raio de visão partir até ao que os olhos não alcançam. É muito custoso acompanhar enormidades, prefiro a pequenez submissa do que é controlável. Enormidades me fogem dos dedos e se não seguro, solto demais me perco. E perder não é para homens feito eu, você sabe. Tenho, antes de tudo, a necessidade de me saber inteiro e estável, mesmo que no olho de um furacão.

Ou minto? Prefiro a existência dos oceanos e essas intermináveis rotas d`água, as minhas lágrimas deságuam nesse mar. Gota por gota, os ribeirinhos contemplam milhões de oceanos das margens que nos separam, e não há barco possível. Imensidão é pensar naqueles olhos azuis-oceano. Os olhos que não pude imaginar pousados sobre mim. O olhar que, faltoso, me desacerta. E me domina mais que a mim mesmo, não perdôo seu destino, não desculpo sua imensidão. Se me convida a navegar, aceito o combate. Aceito a vastidão do não conhecido, mas aceite também o cais se lhe serve. Dos olhos dizem ser a janela da alma. A minha, hoje se veste de branco pra mergulhar no mar, pra acordar peixes e sussurrar no ouvido das sereias qualquer canto que as enfeitice. E nos revele.

A água onde você é navegar, eu mergulho. Quero conhecer o outro lado das coisas porque por não saber não suporto. Estar em vista de e não concluir. Então me sossegue, deixe que a minha mão percorra seu rosto trazendo esse olhar sob mira. Espante daqui essas idéias que me afastam de nos deixar realizar. Não sonhe mais, minha querida. Não sonhe mais comigo. Não sonhe comigo mais, não sonhe. Nos realize.

Renato Gama de Lima


.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Beth!
“... Era azul aquele olhar. E quando me perguntava pelo oceano, respondia: imensidão. O que não se vê fim, mas supõe o começo de onde o raio de visão partir até ao que os olhos não alcançam. É muito custoso acompanhar enormidades, prefiro a pequenez submissa do que é controlável (...)”.
Dê meus parabéns ao seu aluno pela sensibilidade em toda esta poética declaração de amor.

Fernando Antônio de Oliveira disse...

Cliquei errado... não quero ficar anônimo